Samma Samādhi – Desapego dentro da prática

 

Samma Samādhi – Desapego dentro da prática

Venerável Ajahn Chah

 

Observemos o exemplo do Buddha. Ele era exemplar quer na sua própria prática quer nos métodos que usou para ensinar os discípulos. O Buddha ensinou as bases da prática como métodos úteis para nos livrarmos do orgulho. Ele não podia praticar por nós, e tendo escutado tais ensinamentos devemos agora continuar a praticar e a ensinar a nós próprios. Só desta forma surgirão os resultados, e não por apenas escutarmos o ensinamento.

O ensinamento do Buddha pode apenas dar-nos uma compreensão inicial do Dhamma, mas não pode fazer com que o Dhamma fique nos nossos corações. E porque não? Porque ainda não praticámos, ainda não ensinámos a nós próprios. O Dhamma emerge com a prática. Se o souberem é através da prática. Se duvidarem do Dhamma, duvidam da prática. Os ensinamentos dos mestres podem ser verdade, mas somente ouvir o Dhamma não é por si só suficiente para sermos capazes de o realizar capaz de o realizar. O ensinamento apenas nos dá a direcção a tomar. Para realizar o Dhamma temos de agarrar no ensinamento e trazê-lo para os nossos corações. A parte que é para o corpo, aplicamos ao corpo, a parte que é para a fala aplicamos à fala e a parte que é para a mente aplicamos à mente. Isto significa que depois de ouvirmos o ensinamento devemos ensinar a nós próprios a reconhecer o Dhamma como tal.

O Buddha disse que aqueles que simplesmente acreditam nos outros não são verdadeiramente sábios. Uma pessoa sábia pratica até se tornar um com o Dhamma, até ter confiança em si próprio, independentemente dos outros.

Numa dada ocasião, quando o Venerável Sariputta se encontrava sentado aos pés do Buddha, escutando-o respeitosamente enquanto este proclamava o Dhamma, o Buddha virou-se para ele e perguntou-lhe” Sariputta, acreditas neste ensinamento?’ ao que o Venerável Sariputta respondeu “Não,( eu) não acredito neste ensinamento”.

Ora, esta é uma boa ilustração: o Venerável Sariputta ouviu e registou e quando disse que ainda não acreditava não estava a ser insolente, disse a verdade. Ele apenas considerou aquele ensinamento, mas por ainda não ter desenvolvido a sua própria compreensão daquele, disse ao Buddha que ainda não acreditava no ensinamento pois essa era a verdade. Estas palavras quase ressoam como se o Venerável Sariputtaestivesse a ser rude, mas na verdade não estava. Ele disse a verdade e o Buddha elogiou-o por isso: “Muito bem, muito bem, Sariputta. Uma pessoa sábia não acredita de imediato, ela deveria primeiro investigar para acreditar”.

A c/Convicção numa crença pode tomar várias formas. Uma dessas formas está de acordo com o Dhamma, enquanto as restantes, não, sendo estas irresponsáveis; é a crença cega dos tolos, o entendimento incorrecto, micchādițțhi, compreensão incorrecta. Aqui não damos ouvidos a mais ninguém.

Tomemos o exemplo do Brahmin Dighanakkha. Ele acreditava apenas nele próprio e em mais ninguém. A dada altura, quando o Buddha estava a descansar em Rajagaha, Dighanakkha foi ouvir os seus ensinamentos, ou podemos dizer que Dighanakkha foi ensinar o Buddha pois ele tencionava expor os seus próprios pontos de vista…

“Eu sou da opinião de que nada me apraz, nada me preenche”.

Isto era a sua opinião. O Buddha ouviu e depois respondeu: “Brahmin, esta sua opinião também não o preenche”.

Quando o Buddha respondeu desta forma Dighankka ficou estupefacto, não sabia o que dizer. O Buddha explicou de muitas maneira até oBrahmin compreender. Ele parou para reflectir e percebeu…”Uhmm, esta minha percepção não está certa”.

Ao ouvir a resposta do Buddha o Brahmin abandonou as suas opiniões presunçosas e de imediato realizou a verdade. Ele transformou-se naquele exacto momento, dando meia volta, tal como alguém com a palma da mão virada para baixo, a vira para cima. Louvou o ensinamento do Buddha da seguinte forma:

“Ao ouvir os ensinamentos do Abençoado, a minha mente foi iluminada, como alguém que vive na escuridão e se apercebe da luz. É como se a minha mente fosse um cálice invertido que foi virado para cima, tal como quando um homem que, tendo estado perdido, encontra o seu caminho”.

Nessa altura um certo conhecimento surgiu de dentro da sua mente, de dentro dessa mente que foi correctamente colocada na sua posição vertical. A percepção incorrecta desvaneceu-se e a correcta tomou o seu lugar. A escuridão desapareceu e a luz surgiu.

O Buddha declarou que o Brahmin Dighanakkha foi alguém que abriu o “Olho do Dhamma”. No princípio Dighanakkha estava agarrado às suas próprias opiniões e não tinha intenção de as mudar. Mas quando ouviu o ensinamento do Buddha a sua mente viu a verdade, viu que agarrar-se àquelas percepções era incorrecto. Quando o correcto entendimento surgiu, foi capaz de discernir o seu entendimento prévio como erróneo, daí comparar a sua experiência com uma pessoa que vivia no escuro e que encontrou a luz. É assim que as coisas são. Naquele momento o Brahmin Dighanakkha transcendeu a sua compreensão incorrecta.

Devemos transformar-nos desta maneira. Antes de abandonarmos os nossos defeitos devemos mudar a nossa perspectiva. Devemos começar a praticar correctamente e bem. Mesmo que em determinada altura não tenhamos praticado nem correctamente nem bem, ainda assim pensávamos que estávamos certos e que éramos bons.

Quando realmente vamos ao fundo desta questão, “endireitamo-nos”, tal qual como virar uma mão para cima. Isto significa que “Aquele que sabe”, ou a sabedoria, surge na mente que é então capaz de ver as coisas de uma forma nova. Um novo tipo de consciência surge.

Portanto os praticantes devem treinar para desenvolver este conhecimento (ao qual chamamos Buddho, “Aquele Que Sabe”) nas suas mentes. Originalmente “Aquele Que Sabe” não está lá, o nosso conhecimento não é claro, verdadeiro ou completo. Esse conhecimento é portanto demasiado fraco para que possamos treinar a mente. Mas então a mente muda, ou inverte-se, como resultado desta consciência, chamada de sabedoria ou realização, a qual excede o estado consciente antecedente. O anterior ‘aquele que sabe’ ainda não sabia realmente e portanto era incapaz de nos levar ao nosso objectivo.

Assim, o Buddha ensinou-nos a observar interiormente, opanayiko. Olhar para o interior, não para o exterior. Ou, se olharmos para o exterior devemos também olhar para o interior, para aí observarmos a causa e o efeito. Busquem a verdade em tudo, porque os objectos exteriores e interiores influenciam-se sempre, mutuamente. A nossa tarefa é desenvolver um determinado tipo de consciência até esta se tornar mais forte que o anterior estado de consciência. Isto faz com que sabedoria e realização surjam dentro da mente, tornando-nos aptos a reconhecer claramente as maneiras de funcionar da mente, a sua linguagem e as formas e meios de todos os nossos defeitos.

O Buddha, quando pela primeira vez deixou o seu lar para procurar a libertação, provavelmente não estava muito seguro do que fazer, tal como nós. Ele tentou, através de muitas práticas, desenvolver a sua sabedoria. Ele procurou professores, tais como Udaka Ramaputta, para praticar meditação, … sentado com a perna direita em cima da esquerda, a mão direita na esquerda… o corpo alinhado … olhos fechados… abrindo mão de tudo… até ser capaz de alcançar um elevado nível de absorção, ou samadhi (1). Mas quando ele saiu dessesamādhi a sua antiga forma de pensar surgiu e ele percebeu que se iria apegar de novo a isso, tal qual como anteriormente. Ao ver isto ele percebeu que a sabedoria ainda não tinha surgido. A sua compreensão ainda não tinha realizado a verdade, ainda estava incompleta, ainda faltava algo. De qualquer maneira ao ver isto ele adquiriu alguma compreensão – a de que isto ainda não era o cume da prática – mas deixou aquele lugar para ir procurar um novo professor.

Quando o Buddha deixou o seu antigo professor, não o condenou; ele fez tal como a abelha que tira néctar de uma flor sem danificar as pétalas.

O Buddha então prosseguiu e foi estudar com Alara Kalama e atingiu um estado de samādhi ainda mais elevado, mas quando ele saiu desse estado, Bimba e Rahula (2) vieram de novo aos seus pensamentos, assim como antigas memórias e sentimentos. Ainda tinha luxúria e desejo. Reflectindo interiormente ele viu que ainda não tinha atingido o seu objectivo e portanto ele também deixou este professor. Ouviu os seus professores e fez o seu melhor para seguir os seus ensinamentos. Ele investigou continuamente os resultados da sua prática, não foi uma questão de simplesmente fazer coisas descartando-as de seguida para fazer outras.

Mesmo no que diz respeito a práticas ascéticas, após as ter experimentado, ele percebeu que passar fome até sermos só pele e osso é algo que diz somente respeito ao corpo. O corpo não sabe nada. Praticar daquela forma era quase como executar uma pessoa inocente ignorando o verdadeiro ladrão.

Quando o Buddha realmente olhou para isto ele viu que a prática não é algo que diz respeito ao corpo mas sim à mente.Attakilamathanuyogo auto-mortificação – o Buddha tinha-a experimentado e percebeu que esta limitava-se ao corpo. Na verdade, todos os Buddhas são iluminados na mente.

Quando consideramos o corpo ou a mente, podemos colocar ambos no mesmo saco, no saco do Transitório, Imperfeito e Não-eu –aniccam, dukkham, anatta. Eles são simples condições da Natureza, surgem, dependendo de factores de suporte, existem por um período de tempo e depois cessam. Quando existem condições apropriadas, elas surgem novamente, existem por um período de tempo e depois cessam de novo. Estas coisas não são um “eu”, um “ser”, um “nós” ou um “eles”. Não existe ninguém nessas coisas, apenas sensações. A felicidade não tem um “eu” intrínseco, o sofrimento não tem um “eu” intrínseco. Nenhum “eu” pode ser encontrado, são simples elementos da natureza que surgem, existem e cessam, passando por este constante ciclo de mudança.

Todos os seres, incluindo os humanos, tendem a identificar-se com o surgir, com o existir e com o cessar. Agarram-se a tudo. Não querem que as coisas sejam da forma como são e também não querem que sejam de outra forma. Por exemplo, tendo surgido, (eles) não querem que as coisas terminem; tendo experienciado felicidade, eles não querem sofrimento. Se o sofrimento surge, querem que este cesse o mais rapidamente possível e seria ainda melhor que não surgisse de todo. Isto é assim porque eles vêm este corpo e esta mente como sendo eles próprios, ou como pertencendo-lhes e portanto exigem que esta coisas sigam as suas vontades.

Este tipo de raciocínio é como construir uma barragem ou um dique sem construir uma passagem para deixar a água fluir. O resultado é que a barragem rebenta. E o mesmo acontece com este tipo de raciocínio. O Buddha viu que pensar desta forma é a causa para o sofrimento. Vendo a causa, o Buddha abandonou-a.

Esta é a Nobre Verdade da Origem do Sofrimento. As Verdades do Sofrimento, da sua Origem, da sua Cessação e do Caminho que leva a essa Cessação…as pessoas ficam presas justamente aí. Se as pessoas tiverem que ultrapassar as suas dúvidas é precisamente aqui que o farão. Ao ver que as coisas são simplesmente rūpa e nāma, ou corporalidade e mentalidade, torna-se óbvio que elas não são um ser, uma pessoa, um ‘nós’ ou um ‘eles’. Elas seguem simplesmente as leis da Natureza.

A nossa prática é conhecer as coisas desta forma. Não temos o poder de realmente de as controlar, não somos os seus donos. Tentar controlá-las traz sofrimento, pois na realidade elas não são nossas para que as possamos controlar. O corpo e a mente não somos nós nem os outros. Se soubermos esta realidade podemos ver claramente. Vemos a verdade, somos um com ela. É como ver um pedaço de ferro quente vermelho que foi aquecido na fornalha. Todo ele está quente. Quer lhes toquemos em cima, em baixo ou dos lados, está sempre quente. Não importa onde lhe tocamos, está quente. É desta forma que deveríamos ver as coisas.

Quando começamos a praticar, basicamente queremos obter ou atingir algo, saber e ver, mas ainda não sabemos o que é que vamos atingir ou saber. Havia um discípulo meu cuja prática estava repleta de dúvidas e confusão. Mas ele continuou a praticar e eu continuei a instruí-lo até ele começar a encontrar alguma paz. Mas quando ele, eventualmente, ficava um pouco mais calmo, levantava-se e perguntava “O que faço a seguir?” Pronto! A confusão surgia novamente. Ele dizia que queria paz mas quando a alcançava não a queria e perguntava o que fazer a seguir.

Nesta prática devemos fazer tudo com desapego. Como nos desapegamos? Desapegamo-nos ao vermos as coisas claramente. Saber as características do corpo e da mente tal como são. Meditamos para encontrarmos paz, mas ao fazê-lo vimos aquilo que não é pacífico. Isto acontece porque a natureza da mente é movimento.

Quando praticamos samādhi colocamos a nossa atenção nas inspirações e nas expirações na ponta do nariz ou no lábio superior. Este elevar da mente para a concentração é chamado vitakka ou “elevar”. Quando temos então a mente elevada e fixa num objecto, a isto chama-se vicāra, a contemplação da respiração na ponta do nariz. Esta qualidade de vicāra irá naturalmente misturar-se com outras sensações mentais e podemos pensar que a nossa mente não está calma e que não vai acalmar, mas na verdade isto é simplesmente os trabalhos de vicāra enquanto se entrelaça com essas sensações. É claro que se isto for demasiado longe na direcção errada, a nossa mente irá perder a sua concentração e aí deveremos redireccionar a mente, refrescá-la, elevá-la para o objecto de concentração através dovitakka. Assim que tivermos estabelecido a nossa atenção o vicāra predomina, misturando-se com as várias sensações mentais.

Quando vemos isto a acontecer a nossa falta de compreensão poderá levar-nos a perguntar ‘Porque é que a minha mente divagou? Eu quero que ela fique calma, porque é que ela não fica calma?’ Isto é praticar com apego.

Na verdade a mente está apenas a seguir a sua natureza, mas nós adicionamos algo a essa actividade por querermos que a mente fique calma. A aversão surge e nós ainda adicionamos isso a tudo o resto, aumentando as nossas dúvidas, aumentando o nosso sofrimento ou aumentando a nossa confusão. Portanto, se houver vicāra, reflectindo nos vários acontecimentos que se dão dentro da mente, deveríamos sabiamente reflectir… “Ah, a mente é simplesmente assim”. Ora aí está, esse é “Aquele Que Sabe” a falar, dizendo-nos para vermos as coisas como elas são. A mente é simplesmente assim. Entregamo-nos a isso e então a mente fica pacífica. Quando já não estiver centrada trazemos de novo vitakka e em breve haverá calma novamente. Vitakka e vicāra trabalham desta forma juntos. Usamos vicāra para contemplar as várias sensações que surgem. Quando vicāra se torna gradualmente mais disperso trazemos de novo a nossa atenção através do vitakka.

Aqui o ponto importante é que a esta altura a nossa prática deverá ser levada a cabo com desapego. Ao ver o processo do vicāra a interagir com as sensações mentais podemos julgar que a mente está confusa e tornarmo-nos avessos a este processo. Aqui está a causa. Não estamos contentes pois queremos que a mente esteja calma. Esta é a causa – perspectiva errada. Se corrigirmos apenas um bocadinho a nossa perspectiva, observando esta actividade como apenas a natureza da mente, isto por si só é suficiente para acalmar a confusão. A isto chama-se desapego.

Se não nos apegarmos, se praticarmos com desapego… desapego dentro da prática e prática dentro do desapego, se aprendermos a praticar desta forma, então vicāra naturalmente terá menos com que trabalhar. Se a nossa mente deixar de estar perturbada, então vicāratenderá a contemplar o Dhamma, pois se não o fizer a mente ficará de novo distraída.

Portanto existe vitakka seguida de vicāra, vitakka seguida de vicāra, vitakka seguida de vicāra, continuamente até vicāra gradualmente tornar-se mais subtil. No princípio vicāra abrange toda a nossa percepção mental. Quando percebermos que isto é apenas a actividade natural da mente, isto não nos incomodará a menos que nos apeguemos. É como a corrente de água num rio. Se nos tornarmos obcecados, perguntando “porque corre?” então iremos naturalmente sofrer. Se compreendermos que a água simplesmente corre porque essa é a sua natureza então não haverá sofrimento. Vicāra é assim. Existe vitakka seguida de vicāra, interagindo com as sensações mentais. Podemos usar estas sensações como objecto de meditação, acalmando a mente através da observação dessas essas sensações.

Se desta forma conhecermos a natureza da mente então desapegamo-nos, da mesma forma que deixamos a água correr. Vicāra torna-se cada vez mais subtil. Talvez a mente tenda a contemplar o corpo, ou a morte, por exemplo, ou algum outro tema do Dhamma. Quando o tema de contemplação está presente, um sentimento de bem-estar surge. O que é esse bem-estar? É pīti (êxtase). Pīti, bem-estar, surge. Pode manifestar-se como arrepios (“pele de galinha”), uma sensação de frescura ou de leveza. A mente está extasiada. A isto chama-se pīti. Existe também prazer (sukha), o ir e vir de várias sensações, e o estado de ekaggatārammana (a mente está focada numa só direcção ou num só ponto; o oposto de dispersa).

Se falarmos em termos do primeiro estágio de concentração, temos: vitakka, vicāra, pīti, sukha, ekaggatā. Então como é o segundo estágio? Enquanto a mente se torna progressivamente mais subtil, vitakka e vicāra tornam-se, comparativamente, mais densos sendo assim descartados, deixando apenas, pīti, sukha e ekaggatā. Isto é algo que a mente faz por si própria, não temos de conjecturar acerca disto, apenas conhecer as coisas como elas são.

Quando a mente se torna mais refinada, pīti será eventualmente descartada, deixando apenas sukha e ekaggatā, e iremo-nos aperceber disso. Para onde é que pīti foi? Não foi a lado algum, o que acontece é que a mente torna-se gradualmente mais subtil e por isso descarta aquelas qualidades que são demasiado densas para ela. Tudo o que é demasiado denso é descartado até alcançar o ponto de subtileza, conhecido nos livros como Quarto Jhāna, o mais elevado nível de absorção. Aqui a mente progressivamente descartou tudo o que se tornou demasiado denso para ela até permanecerem somente ekaggatā e upekkhā, equanimidade. Não há nada mais além disto, este é o limite.

Quando a mente está a desenvolver os estágios de samādhi deve proceder desta forma, mas compreendamos, por favor, o básico da prática. Queremos acalmar a mente mas ela não ficará calma. Isto é praticar por desejo, mas não nos apercebemos disso. Desejamos calma. A mente está sempre perturbada e nós ainda perturbamos mais por querermos que fique calma. Este mesmo querer é a causa. Não vemos que este querer que a mente acalme é tanha (anseio). Apenas aumentamos o fardo. Quanto mais desejamos calma, mais perturbada a mente fica, até desistirmos. Acabamos por estar sempre a lutar, sentados às “turras” connosco próprios. Porquê? Porque não reflectimos na forma como predispusemos a mente. Conheçam as condições da mente por aquilo que elas são. Seja o que for que surja, apenas observem. Trata-se puramente da natureza da mente, não é danosa a menos que não a compreendamos. Não é perigosa se virmos a sua actividade pelo aquilo que é. Então praticamos com vitakka e vicāra até a mente começar a acalmar e a tornar-se mais dócil. Quando surgem sensações, observamo-las e começamos a conhecê-las.

Contudo, normalmente tendemos a lutar com elas porque desde o princípio estamos determinados a acalmar a mente. Assim que nos sentamos os pensamentos vêm angustiar-nos. Assim que designamos o nosso objecto de meditação a nossa atenção vagueia por todos os pensamentos, achando que esses pensamentos vieram para nos perturbar. Mas na verdade o problema surge imediatamente ali, desse mesmo querer.

Se virem que a mente está somente a comportar-se de acordo com a sua natureza, que os pensamentos naturalmente vão e vêm desta forma, não se centrem demais nisso. Podemos compreender os caminhos da mente (assim) como compreendemos uma criança/as criançasAs crianças dizem todo o tipo de coisas, não sabem fazer melhor. Se as compreendermos, simplesmente deixamo-las falar pois elas naturalmente falam dessa forma. Quando abrimos mão não existe nenhuma obsessão com a criança. Podemos falar com os nossos convidados imperturbavelmente, enquanto a criança tagarela e brinca à nossa volta. A mente é assim. Não é danosa a menos que nos agarremos a ela e nos tornemos obcecados. Isso é a verdadeira causa dos enredos.

Quando pīti surge nós sentimos um prazer indescritível, que apenas quem experiencia consegue apreciar. Sukha (prazer) surge, e existe também esta qualidade de focagem em um só ponto. Ocorrem vitakka, vicāra, pīti, sukha e ekaggatā. Todas estas cinco qualidades convergem para um ponto. Apesar se serem qualidades diferentes elas estão todas reunidas num mesmo sítio, e podemos observá-las todas lá, como quando vemos diferentes tipos de fruta na mesma tigela. Vitakka, vicāra, pīti, sukha e ekaggatā, podemos vê-las todas na mente, todas estas cinco qualidades. Se alguém perguntasse “Como é que vitakka está lá, como é que vicāra está lá, como é que estão lápīti e sukha?”, seria difícil responder. Mas quando elas convergem na mente, podemos ver como é por nós próprios.

A esta altura a nossa prática torna-se de certa forma especial. Devemos ter interiorização e autoconsciência e não nos perdermos. Sabei as coisas pelo que elas são. Estes são estágios de meditação, o potencial da mente. Não tenham dúvidas de nada do que respeita à prática. Mesmo que se afundem na terra ou voem pelo ar, ou mesmo que “morram” enquanto estão sentados, não duvidem disso. Quaisquer que sejam as qualidades da mente, fiquem-se pelo conhecimento destas (não proliferem). Esta é a nossa fundação: ter sati, interiorização esampajanna, auto-consciência, quer estejamos em pé, a andar, sentados ou deitados. O que quer que surja, deixem-no “ser”, não se agarrem a isso. Seja agradável ou desagradável, felicidade ou sofrimento, dúvida ou certeza, contemplem com vicāra e verifiquem os resultados dessas qualidades. Não tentem rotular tudo, apenas reconheçam. Percebam que todas as coisas que surgem na mente são simples sensações. São transitórias. Elas surgem, existem e cessam. Isso é tudo o que elas são, elas não têm um “eu” ou um ser, elas não são “nós” ou “eles”. Não vale a pena agarrarmo-nos a nenhuma delas.

Quando vemos toda a rūpa e nāma (3)desta forma, com sabedoria, então vemos os arquétipos. Apercebemo-nos da transitoriedade da mente, da transitoriedade do corpo, da transitoriedade da felicidade, do sofrimento, do amor e do ódio. Todos eles são impermanentes. Ao observar isto a mente fica cansada; cansada do corpo e dela própria, cansada de coisas que surgem e cessam e que são transitórias. Quando a mente se ‘desencanta’ procura uma forma de largar todas estas coisas. Já não quer ficar presa a coisas, apercebe-se da falta de nexo deste mundo e da falta de nexo do nascimento.

Quando a mente vê assim, onde quer que vamos, vemos aniccam (Transitoriedade), dukkham (Imperfeição) e anatta (Não-eu). Não resta nada ao qual nos agarrarmos. Quer nos sentemos debaixo de uma árvore, no topo de uma montanha ou num vale, conseguimos ouvir o ensinamento do Buddha. Todas as árvores parecerão uma, todos os seres serão Um, não haverá nada de especial acerca de nenhum deles em particular. Eles surgem, existem durante um período, envelhecem e morrem, todos eles.

Vemos então o mundo mais claramente ao ver este corpo e mente mais claramente. Eles tornam-se mais claros à luz da Transitoriedade, à luz da Imperfeição e à luz do “Não-eu”. Se as pessoas se agarrarem rapidamente às coisas, sofrem. É assim que o sofrimento surge. Se virmos que o corpo e a mente são simplesmente como são, não surge sofrimento algum, porque não nos agarramos de imediato a eles. Em qualquer lugar temos sabedoria. Até mesmo ao observar uma árvore podemos observá-la à luz da sabedoria. Olhar para a relva e para os vários insectos torna-se alimento para a reflexão. Quando chega a este ponto vai tudo para o mesmo saco. É tudo Dhamma.Tudo é invariavelmente transitório. Esta é a verdade, este é o verdadeiro Dhamma, isto é uma certeza. Como pode ser uma certeza? É uma certeza no sentido de que o mundo é assim e nunca poderá ser de outra forma. Não existe nada mais nele do que isto. Se conseguirmos ver isto então terminamos a nossa jornada.

No Budismo, no que respeita a pontos de vista, diz-se que achar que somos mais tolos que os outros, não está certo; achar que somos iguais aos outros, não está certo; e achar que somos melhores que os outros, não está certo… porque não existe nenhum “nós”. É assim que as coisas são, temos de desenraizar os conceitos. A isto chama-se lokavidū – conhecer claramente o mundo como ele é. Se então virmos a verdade, a mente vai indubitavelmente reconhecê-la e ceifará a causa do sofrimento. Quando já não existe causa, o resultado não poderá haver consequência. É desta forma que a nossa prática deverá prosseguir.

As bases que precisamos de desenvolver são: primeiro, ser honesto e sincero; segundo, estar consciente de que erramos; terceiro, ter o atributo de humildade dentro do nosso coração, ser frugal e contentar-se com pouco. Se vivermos contentes falando pouco e em todas as outras coisas, ver-nos-emos a nós próprios, não seremos levados por distracções. A mente terá uma fundação de sila, samādhi e paññā.

Portanto aqueles que cultivam o caminho não devem ser descuidados. Mesmo que estejam correctos, não sejam descuidados. E se estiverem errados, não sejam descuidados. Se as coisas estiverem a correr bem e se sentirem felizes, não sejam descuidados. Porque digo “não sejam descuidados?” Porque todas as coisas são incertas. Tenham-nas como tal. Se estiverem a sentir paz, deixem a paz acontecer. Podereis realmente desejar continuar a desfrutar dela mas deveis saber a sua natureza; e o mesmo se aplica às qualidades desagradáveis.

O cultivo da prática mental pertence a cada indivíduo. O professor só explica a forma de treinar a mente pois esta é única em cada indivíduo. Sabemos o que está lá, ninguém pode conhecer a nossa mente tão bem quanto nós. A prática requer este tipo de honestidade. Façam-no diligentemente, não a meio gás. Quando digo “diligentemente” quer isso dizer que vocês se devem exaurir? Não, não têm de se exaurir porque a prática é feita na mente. Se souberem isto então saberão o que é a prática. Não precisam de muito. Usem apenas as bases da prática para interiormente reflectirem acerca de vós próprios.

Neste momento estamos a meio do Retiro das Chuvas. Para a maior parte das pessoas é normal deixar a prática descarrilar depois de algum tempo. Não são consistentes do princípio ao fim. Isto demonstra que a sua prática ainda não está madura. Tendo determinado uma dada prática no início do retiro, qualquer que esta seja, devemos levar essa resolução até ao fim. Durante estes três meses pratiquem consistentemente. Devem tentar. Seja o que for que determinaram como prática, levem isso em consideração e observem se a prática está a enfraquecer. Se for o caso façam um esforço para restabelecê-la. Continuem a refrescar a prática, tal como quando praticamos concentração na respiração. Enquanto a respiração se dá, fora e dentro, a mente distrai-se. Então restabeleçam a atenção na respiração. Quando a vossa atenção vagueia de novo tragam-na de volta mais uma vez. Isto é o mesmo. No que diz respeito quer ao corpo quer à mente a prática continua desta forma. Por favor façam um esforço nesse sentido.

 

Notas:

1. O nível de nada, uma das “absorções sem forma”, por vezes chamada de sétimo jhāna ou absorção.

2. Bimba, ou Princesa Yasodhara, a ex-mulher do Buddha; Rahula, o seu filho.

3. Rūpa: objectos materiais ou físicos; nāma: objectos imateriais ou mentais. Os constituintes físicos e mentais do ser.

 

 

Tradução de Appamado Bhikkhu

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