O Incondicionado

 

O Incondicionado

 

Venerável Ajahn Sumedho

(22 Setembro 2005 – Porto)

 

Namo tassa baghavato arahato samma sambudhassa

Namo tassa baghavato arahato samma sambudhassa

Namo tassa baghavato arahato samma sambudhassa

 

Ora, então já só temos Sexta, Sábado, e Domingo o Retiro acaba.

Reflictamos então sobre o resultado do retiro até aqui, não em termos de “bom” ou “mau”. Por vezes as pessoas dizem, “tive um mau retiro” ou “um bom retiro”. Mas mau retiro também é bom e se houvesse só bons retiros nunca se aprenderia nada (sorri).

As convenções religiosas têm as suas formas e isso são precisamente convenções. Assim por exemplo, questões sobre os budistas não acreditarem em Deus e coisas do género (sorri), aqui neste caso está-se a misturar convenções. Tal como linguagens diferentes, são só convenções. E a palavra “Deus”, o que é que isso quererá significar? Acontece muitas vezes, que a palavra “Deus” usa-se como se todas as pessoas concordassem da mesma maneira no que se pensa. O que é que se quererá dizer no contexto cristão ou no contexto judaico? “Deus” é a palavra utilizada. Mas no contexto budista por exemplo fala-se em ensinar deuses e homens, não é de ensinar Deus e os homens… deuses neste caso não equivale a Deus no sentido Cristão da palavra. Portanto, isto tudo são palavras que procedem de formas em que existe uma concórdia ao falar ou ao reportar-se em termos de “desenvolvimento espiritual”, e assim quando misturamos tudo (religiões, crenças), gera-se confusão. Portanto, ao ensinar dentro do contexto budista, tenta-se ficar perto do uso de terminologias budistas, de como saber usar o contexto budista.

Isto não é um Retiro sobre comparação de religiões (sorri), mas sobre meditação e de como saber usar a convenção budista.

É interessante de ver, como no Budismo, o Buddha, tenha Ele acreditado em “Deus” ou não, esse nunca foi o tipo de abordagem que Ele assumiu em relação à vida espiritual, mas fê-lo sim, quase em direcção oposta e isto é o que realça as “Quatro Nobre Verdades”. E estas não são verdades metafísicas, não se trata de tentar definir a “realidade última” ou até de se usar termos para outros factores que não os negativos como o “Incondicional”, o “Incriado”, “Cessação”, “Nibbāna” (Nirvāna).

As religiões teístas por seu lado, costumam começar muito mais por doutrinas metafísicas, “eu acredito em Deus”…mas isto no Budismo equivale a, pelo menos na Tradição Theravada, “o sofrimento existe”, “a sua causa existe”, “a sua cessação existe” e “o caminho para a cessação do sofrimento existe”. Ou seja, é quase o reverso, toma o sentido reverso da conduta em oposição à religião teísta. Ora a “Primeira Nobre Verdade” é baseada numa experiência bastante comum e certamente que não é uma verdade metafísica, é uma realidade existencial, não é assim? O sofrimento é uma experiência comum a todos os seres humanos, todos os seres sencientes. E pondo isso dentro do contexto de uma “Nobre Verdade”, que nobreza é que se pode encontrar acerca do sofrimento? A mim parece-me um facto maléfico, em termos da minha mente americana (sorri)…o que eu quero é fugir disso, como é que nos livramos disso? Como é que saímos de um sofrimento? Então esta abordagem do Buddha é precisamente para compreendermos o sofrimento, como nós o criamos. Portanto ao dar uma palestra, estou constantemente a apontar a forma como as coisas são, esta experiência existencial de sentar, respirar, sentir, de estar nesta forma sensível. Eu tenho estado num corpo humano, eu tenho estado consciênte…eu não estou a tentar dizer o que vocês deviam pensar sobre isto, mas a indicar-vos e a encorajar-vos a acordar e a observar, para se aperceberem. Isto é plena atenção, acordar para a realidade deste momento assim tal como é, que inclui felicidade, sofrimento ou o que seja que estejam a experimentar agora mesmo.

A ênfase que se dá a toda a fenomenologia condicional é impermanente. E o “incondicional”, o “incriado”, o “não-nascido”, o “não-originado” existe, logo existe também a saída para fora do “condicionado”, do “criado”, do “nascido”, do “originado”.

Ou seja, toda esta forma de ensinar, de indicar, de falar, não é para acreditarem, eu não estou a pedir para acreditarem no que quer que seja, mas sim para observarem as condições…a maneira como é (como as coisas são), conscientemente experimentando dentro da forma humana, dentro da vossa forma…dentro da maneira como a vossa mente trabalha, das emoções que estão a ter, das energias, das experiências energéticas que podem estar a experimentar agora. E não é ajuízar se é bom ou mau mas ser o que é…este modo, este ser o que é, assim tal e qual como é. O Buddha depois da sua Iluminação sempre se referiu a Si próprio como o “Tathāgata”, “Tathāta”, esta palavra “tathā” em Pāli significa “a integridade do que é” ou “aquilo tal qual é”, o “como é”. Ele não se referiu a Si e disse “eu costumava ser o Príncipe Siddhārtta e o meu Pai era um Rei, a minha Mãe era uma Rainha e Eu frequentei as melhores escolas (sorri)…e casei, tive um filho e deixei-os quando optei por ser asceta por seis anos e vi-me na futilidade de me maltratar e sentei-me debaixo de uma árvore e tornei-me iluminado” (ri). Aquilo que é o agora, “tathāta”, “tathāgata” é “assim se torna Um que é o agora”, é como uma referência, aquilo que é presente. Não é o Príncipe Siddhārta, não é o asceta Gautama, nem é sequer o Buddha, no sentido de dizer “eu sou o Buddha” num acto se proclamar Ele próprio a esse nível. Ora tomemos aqui atenção à erudição da linguagem, “Tathāgata” tornou-se frequentemente, em várias tradições budistas, uma espécie de título superlativo, quando na realidade significa “aquilo que é precisamente agora”. Então este “tathāta”, “tathā” e “tathāgata” ou qualquer coisa com esse prefixo, é traduzido como “a qualidade tal d’aquilo que é agora”, não é uma pessoa, não é alguém com uma história, um passado, com uma auto-biografia, credenciais, status, sucesso ou seja lá o que fôr, mas que é aquilo que é “agora”.

E eu sempre achei esta perspectiva bastante interessante, porque implica aprender o verdadeiro significado da linguagem. Porque eu vivi na Tailândia durante os meus estágios iniciais de meditação, portanto eu tive que aprender meditação através de termos em Línguagem Tai, de traduções Tai-Inglês e de Pāli…e então, é claro que a Língua Tailandesa é uma Língua que se desenvolveu culturalmente sob a influência e o contacto com o Budismo, incluindo em si bastantes palavras do Pāli, como o Inglês com o latim que inclui bastantes palavras. E então aprender noutra Língua, achei uma grande revelação, porque na nossa própria Língua pode-se tomar como certo e pensar que realmente se percebe seja lá o que fôr. O Inglês é a minha Língua natal, é Inglês Americano, mas é um hábito-Língua que simplesmente se aprende…é do género de se ir absorvendo quando se ouve na infância, quando se é bebé e a nossa Mãe fala ou outra pessoa qualquer. Então aprender meditação noutra língua como a Tailandesa, achei uma grande revelação, porque de certa forma eu não conseguia perceber, porque não era a minha Língua natal. Tive que considerar o sentido para onde indicava, qual é o significado das palavras. E a princípio, a Língua Tailandesa é uma Língua muito psíquica, há todo um leque de termos acerca de “Citta” (mente-coração) e “Jay” (vencer-conquistar), diferente níveis de felicidade e miséria, enlevo ou depressão, intermináveis tipos de combinações para descrever sentimentos emocionais, estados mentais. E também, traduzir isso para o inglês e aprender a como utilizar a Língua inglesa da forma como realmente funciona, não só em termos de expressão gramática ou de estrutura da Língua, mas psiquicamente, como na realidade as palavras têm efeito, de como elas na realidade afectam a consciência, porque a consciência é o alicerce do Ser. Isto é consciência, a Língua, as palavras, os conceitos, os eus. Como por exemplo dizer “Eu”…só este pronome, pronome pessoal “Eu”…e então nós temos “eu” e “meu”. É evidente que “Eu” não implica necessáriamente egoísmo quando aponta à realidade do Ser, mas quando entro em pontos de vista e opiniões fortes, egoísmo e obsessão, quando fico obcecado com o “eu”, estou obcecado comigo, com o meu ser, com o que é meu…então estas palavras “eu” e “meu” são extremamente poderosas para se reflectir sobre elas, pois conduzem a este sentido de importância pessoal, do que eu penso, de que estes são os meus pensamentos, esta é a minha vida, os meus direitos…esta é a era dos direitos, exigindo os meus direitos.

E depois “Eu” pode facilmente conduzir a este sentimento de “individualidade pessoal”. Mas “Eu” também pode querer dizer “não-pessoal”…não um “eu” pessoal separado em termos de alguém com uma história, um corpo ou coisa do género, mas mais para indicar a realidade do estar presente. “Eu sou” é uma afirmação honesta…se fôr para nos exprimirmos neste momento com palavras, será com “Eu sou”. E eu refiro-me a isto na Lenda do Buddha, a seguir à Iluminação, quando Ele se dirige para Varanasi e encontra o asceta que Lhe pergunta, «Vós pareceis tão particularmente resplandecente e radiante…o que foi que acabastes de descobrir?». E Ele simplesmente responde «Eu Sou O perfeitamente iluminado»… e eu costumava interrogar-me sobre isto e dizia «se Ele estava iluminado, como poderia Ele dizer uma coisa dessas?». Sinceramente acho que é algo perfeitamente estúpido de dizer se me perguntassem….imaginem, alguém vos pergunta e vocês respondem «Eu Sou o/a perfeitamente iluminado/a»… quem quer que dissesse isso eu não confiaria. Eu já cheguei a conhecer pessoas aqui em Amarāvati de entre as quais uma proclamou-se Deus. Mas na verdade o Buddha disse o que disse, pelo menos na escritura, não sei até que ponto a história é fidedigna, mas é uma boa história e o asceta foi-se embora e não acreditou. Então, será que o Buddha estava a dizer uma mentira, ou foi só presunção? Ou foi o “Eu” não pessoal? Portanto isto é só uma reflexão sobre o uso deste pronome. Será que “Eu” sempre se refere a mim como uma pessoa? Ou é antes um testemunho da realidade? “Eu sou o iluminado”, “Eu sou o caminho”, “Eu Sou…”… e claro, para muitos de nós parece-se como sendo o ego, porque geralmente é assim que se usa a palavra, o pronome “eu”. E é óbvio, se alguém sente o seu ego envolvido, então vai-se interpretar como uma espécie de objectivo pessoal a ser alcançado, tornando-se personalidade… ou não será?

Por exemplo, no Advaita (Vedānta), eles usam o “Eu Sou” como “quem sou eu” ou usam a reflexão no “Eu Sou” de uma forma sábia. E então os budistas dizem «oh, no Advaita eles têm o “Eu” superior e o “Eu” inferior e o “Atman” e é tudo uma porcaria, nós os budistas é que estamos certos…». Mas, será que realmente sabemos o que estamos a dizer?.. será que compreendemos nós realmente a nossa própria convenção verdadeiramente? Porque nós temos preconceitos e juízos tendenciosos a respeito de outras religiões, a respeito de outras convenções que nós próprios não nos inteiramos nem compreendemos… que nem as praticamos para as perceber, simplesmente as julgamos do ponto de vista da nossa própria convenção. É como a presunção de ser inglês, não é?.. onde se pensa com presunção de que o Império Colonial Britânico ensinava as pessoas a serem civilizadas, porque a nossa civilização tinha muito mais brio do que qualquer outra, quando na realidade não compreendia ninguém… e isto é ser o “eu” e o “meu” que são convencidos, onde existe preconceito tendencioso e prejuízo que vem da ignorância.

E então, apontando para a consciência, qualquer que seja a nossa raça, religião, classe ou seja o que fôr, nós na realidade somos seres de consciência, isto é consciência. E a linguagem é algo que nós aprendemos e usamos em consciência. E neste Retiro aquilo para o qual aponto, não é para a convenção como algo que vocês têm que dominar, mas sim antes para o modo como usar a convenção do Budismo Theravada. Portanto, não é para criar mais presunção, não é para adicionar mais presunção à que já possamos ter. É usar isso precisamente para ver e penetrar através da presunção, através da ignorância, preconceito ou apego que possamos ter, para ir mais além, para ver o sofrimento que nós experimentamos, que eu experimento quando estou agarrado a ideias, opiniões, posições, sentimento de auto-importância, qualquer conceito, pensamentos ou atitudes que eu possa ter ou até ainda nem estar consciente, até começar a observar e reflectir no que realmente estou a pensar e a sentir. Eu costumava ser convencido de que não era convencido…alguém fala de presunção e diz que alguém é muito convencido e eu não suporto gente presunçosa…e quando eu comecei a reparar na forma como eu costumava julgar as outras pessoas como convencidas, reparei como estava a ser bem convencido (ri), chegando a dizer «eu não sou assim».

Portanto, o “Eu Sou”, como já indiquei anteriormente, se o ponho ao nível pessoal «Eu sou Ajahn Sumedho», deixa então de ser universal e torna-se pessoal… «Eu sou Americano-Britânico»… se o puser em termos universais pode-se dizer «Eu sou… Amor». O que será isso? Agora aqui entramos no uso da palavra inglesa “Love” (Amor) e é claro que como bem sabem, esta palavra é usada quase para tudo e mais alguma coisa hoje em dia (ri)… mas é uma palavra bem poderosa na linguagem inglesa, e fez o seu caminho para quase todas as Línguas no planeta por esta altura. Portanto, não pode simplesmente ser posta de lado. Mas quando falamos sobre “Amor” ou amor romântico, ou amor pessoal, amor incondicional, amor Cristão… o que é que nós queremos dizer com esta palavra? Então os budistas usam “Metta” e fica logo tudo resolvido não é verdade (risos). Escrevem-se letras em que não se diz “Love” (Amor) mas diz-se “Metta”. Pois, na verdade “Love” (Amor) pode soar incrivelmente pessoal, como por exemplo em “being in love” (estar enamorado/apaixonado) com uma certa afectividade e intimidade pessoal. Ou pode significar “Metta” (Loving/Kindness – Amabilidade/Carinho), ou então usamos o termo “Amor incondicional”…ou será isso só mais outro tipo de ideia ou grande ideal? «Não seria tão bom haver amor incondicional? Ai o meu amor é incondicional»… isto soa bonito e é inspirador… mas “amor” muitas das vezes na forma como é usado, simplesmente significa gostar. Portanto gostar e desgostar, o que muitas das vezes se quer dizer “eu amo este sítio ou esta pessoa”, mas quando essa pessoa não faz o que nós queremos já não gostamos dela (sorri). Depois ficamos muito confusos porque queremos amar alguém incondicionalmente, mas logo, muitas das vezes não gostamos do que essa pessoa está a fazer, então fica-se confuso (ri abertamente)… porque quando se pensa que essa pessoa está a fazer qualquer coisa que não gostamos, não nos sentimos a gostar, não é? Porque a memória ou a percepção é “ele falhou-me” ou “ele traiu-me” ou “desiludiu-me”… ou seja, isto é o sentimento de “eu”, de “gostar” ou de “desgostar”. Portanto, quando eu uso o termo “amor incondicional”, qual será a realidade do amor incondicional neste preciso momento? E então aqui a mente pára, não é verdade?.. “o que é amor incondicional neste preciso momento?”… é real ou será só uma ideia superior?.. estarei eu a sentir amor incondicional agora mesmo ou não?.. o que será agora? Se é incondicional é intemporal, não depende de condições, não depende de empatia, de ser simpático ou amável… de concórdia, ou aprovação ou de qualquer outra coisa. Num nível pessoal eu gosto mais de certas coisas do que outras e não gosto de outras tantas… aprovo certas facções, desaprovo outras tantas. São preferências, opiniões e diferentes pontos de vista de acordo com a forma como eu estou condicionado a pensar, da forma que eu espero e exijo da vida para comigo próprio.

Portanto, faço por, na minha própria experiência ao usar a palavra “Amor”, não defini-lo ou ficar a pensar demasiado em direcção a infinitas descrições sobre “Amor incondicional”, mas simplesmente reconhecer a realidade que é. A minha experiência sobre isto, que já contei a alguns de vocês anteriormente, sobre ter estado muito irritado com alguém, há alguns anos atrás, muito magoado, enraivecido, muito perturbado… portanto, sempre que esta pessoa surjia na minha consciência, eu sentia esta raiva, esta aversão… e então, comecei a observar isto que se chegou a tornar extremamente terrível e sufocante, quando eu na realidade não queria sentir isso… mas era o que estava a ocorrer (sorri). E então comecei a escrever a minha aversão. Lembro-me de estar ali sentado uma tarde inteira a escrever tudo o que me vinha à cabeça, como nunca antes… afirmações do pior, eu nem tão pouco tentei ser amável ou politicamente correcto, ou decente, ou qualquer outra coisa, eu simplesmente escrevia todo o ódio, sem precedente. E finalmente ao acabar, enchi três páginas, que queimei e enfiei pela sânita abaixo (risos).

Mas o significado deste discurso crítico de raiva em três páginas, foi que eu trouxe à superfície a imagem da memória desta pessoa e, depois disso nada permaneceu. Até na minha mais vívida imaginação, já não havia mais nada para pensar de sórdido ou horrível acerca daquela pessoa (ri). Portanto, a mente ficou simplesmente vazia. Depois trouxe a imagem desta pessoa outra vez à memória e perguntei, o que é que este vazio tem a dizer?.. e o vazio disse “Eu amo-te” a essa pessoa, à memória dessa pessoa. Isto para mim foi uma revelação muito importante porque, na realidade o que jaz por debaixo, mesmo desta raiva e cólera, é o Amor. Mas nós não sabemos isto, quando estamos envolvidos nos detalhes e dentro da própria raiva. Se tentarmos simplesmente parar isso, esse envolvimento raivoso… porque na realidade, nós queremos ser amáveis com amor e simpatia e podemos ser sensatos e entender as outras pessoas muito bem. Posso até pôr-me no lugar delas e compreender porque dizem coisas terríveis e tudo mais, mas, mesmo assim, estou a ser correcto ao nível da razão, mas ao nível emocional, no entanto, ou me deixo apanhar nisso simplesmente por pensar, vaguear, odiar e embrulho-me todo na emoção ou então, faço por não me envolver e páro isso. Ao reflectir desta forma e até tendo escrito isso cá para fora, não só como tendência mental sem realmente aceitar ou encarar, trouxe à superfície e encarei esta fúria e raiva. E ao escrever, consegui pelo menos trazer a emoção a um nível superior de evidência, para uma exposição crítica que me permitiu realmente conhecer e aceitar o que eu estava a pensar, e a sentir o melhor possível de modo a descrever a fúria, a raiva e a mágoa que eu estava a experimentar…mas chegou a um fim… passado um tempo não havia mais nada para dizer… e então houve uma realização, “amor incondicional subjaz tudo”. Mas nós não nos apercebemos, porque estamos perdidos nos nossos apegos, nos nossos hábitos, pontos de vista e opiniões, nas nossas ilusões… nas nossas personalidades.

Portanto, se não conhecerdes o que é a vossa personalidade ou, se não souberdes verdadeiramente o que são as emoções, vai-se simplesmente ajuízar de um nível racional, “raiva é má e isto é amor, é bom e eu gosto”, depois acredita-se nos gostos “este é um bom monge, aquele é um mau monge” e várias preferências surgem e desaparecem, e entretanto alguém de quem nós gostamos hoje, amanhã podemos já não gostar (ri). O gostar é mesmo algo em que não nos podemos fiar (sorri). E então tomei consciência que há sempre condições para se gostar… e quando por exemplo, vemos mães com crianças e as crianças estão a ser mesmo teimosas, difíceis, abomináveis e impossíveis e, pode-se ver que a criança está a ser completamente insuportável nesse momento (ri)… mas no entanto as mães não dizem “eu odeio a criança”, pelo menos a maioria… e por debaixo de tudo isso, frustação, não gostar, da saturação… está este Amor incondicional. Portanto, isto para mim, não foi um amor romântico, não foi sentimental. Neste sentido o amor incondicional aceita tudo… percebem, sem condições. Não é como “eu amo-te só quando te portares bem, ou se te comportares decentemente e não humilhares nem envergonhares a família” (ri).. “mas quando fizeres coisas de que eu não gosto eu já não te amo mais”. Mas é possível pensar dessa maneira “eu já não amo mais quem fala mal sobre mim, quem espalha rumores, quem me calunia com má fé, quem me maltrata…” e então “eu já não te amo mais.” Ou outras condições para não se gostar, são por exemplo situações em que me insultam e que estão a abusar de mim… eu não consigo gostar dessas pessoas nesse momento. Mas se eu reconhecer e estiver ciente de que mesmo por debaixo dos meus gostos e antipatias que surgem e esmorecem conforme as condições, está este Amor incondicional, pode-se cultivar a prática de Metta (amabilidade-bondade) ou Amor incondicional. Quando se pratica Metta connosco próprios e vamos ter com os outros, podemo-nos tornar de certa forma demasiado sentimentais ou mimados, eu admito, algumas formas de comportamento podem-se tornar insatisfatórias para mim…mas e se fôr só simplesmente um tipo de simpatia verbal e pretenciosismo sentimental? Portanto, e é aqui que se pergunta, afinal de contas o que é que na realidade é Metta? Quando nós realmente investigamos o uso de Metta, na realidade é aceitar todas as condições…tudo assim tal como é, sem o gostar ou deixar de gostar… não tem nada a ver com aprovar ou desaprovar. Assim nós emitimos Amor para o Senhor da morte, para os Demónios, assim como para os Anjos, os bons e os maus. Não é uma questão de mais Amor para o Anjos e só um bocadinho para os Demónios (sorri), ou uma questão de percentagem ou de quem merece. Quem será que merece o meu Amor?..obviamente, os Demónios, vou ser decente com eles e talvez lhes dê 1%” (ri)…e isso não é incondicional, ou será que é? É ser simplesmente sentimental…e é entrar mais uma vez naquele modo “tu mereces mais que aquela pessoa” e então entra-se em maneiras de ver pessoais, opiniões, gostos e preferências por aí fora. Portanto, Amor incondicional, é esta habilidade para aceitar e isso é para fazer durante a própria meditação, no agora, quando estiverem com plena atenção e a experimentar emoções desagradáveis…tentar simplesmente cultivar esta habilidade para aceitar a sensação, este sentimento…esta raiva ou ressentimento, ou ciúme ou medo…seja lá o que fôr, sem condições. Nem sequer é uma questão de aceitarmos ou livrarmo-nos de…mas é permitir qualquer condição que seja, de ser o que é…e apliquem simplesmente isso a vós próprios, à vossa própria experiência enquanto estão aqui sentados, quando tiverem provavelmente que lidar com negatividade, raiva e coisas que vocês poderam não gostar de forma alguma, que podem estar a surgir e que vocês podem estar a experimentar e pessoalmente a desgostar.

Portanto, em meditação, e num Retiro como estes, é que nós temos esta oportunidade de permitir o medo…pois o medo é muitas das vezes uma emoção que simplesmente rejeitamos ou resistimos. Por isso muitas das vezes nós experimentamos muito medo num sítio como este, que na realidade até é bastante seguro. Não há aqui nada de que ter medo, mas, há terror, medo, ressentimentos e todos os tipos de estados estranhos, negativos que podem surgir na consciência. Portanto, podemos cultivar esta atitude do Amor incondicional, ou Metta, ou Plena Atenção (Sati – Mindfulness). Plena Atenção (Sati – Mindfulness) é permitir seja lá aquilo que fôr, ser o que é… ser a qualidade do que é…se é estúpido ou sem sentido nenhum, sujo, ou perverso, ou seja lá o que fôr. Poderão querer descrever isso, mas se o fizerem estão a tornar a situação mais do que aquilo que realmente é porque estão a julgar de determinada forma. É o que é, a condição começa e acaba. E isto não é demitir ou ignorar a qualidade, mas também não é indulgenciar-se no julgamento da qualidade. A “Presença Consciente” (Awareness) dá permissão, discernimento, permite receber algo. Mas a tendência para julgar a qualidade, vem mais uma vez da mente critica, “isto é mau, isto é bom, isto está certo, aquilo está errado”.

Então, eu acho que este modo de reflectir, na realidade, é uma purificação. Porque na verdade, quando se consegue fazer isto, mesmo que o que venha à consciência possa parecer contaminado e impuro, está-se na realidade a permitir-lhe a liberação, a permitir que parta. Está-se a libertar estes estados miseráveis. Através da consciência o que é que eles fazem?..eles param, eles vão-se embora. Se não se fizer isso então tende-se a suprimí-los outra vez, ou é terrível e resiste-se, estando constantemente a não permitir esta purificação, esta pureza natural, porque se está de tal forma em controlo, a tentar controlar e a rejeitar o que não se gosta e o que não se quer ver, o que não se quer saber e de que se tem medo, que se suprime.

Portanto, é aqui que se encontram as referências ao Buddha, Dhamma, Sangha. Porque é que eu valorizo isso, porque é que tomo refúgio no Buddha, Dhamma, Sangha? Porque isto…isto é uma forma e uma convenção, mas para mim, porque o desenvolvi, isto é uma referência, uma recordação. Estas três frases: Buddham Saragnam Gachami (eu tomo refúgio no Buddha); Dhammam Saragnam Gachami (eu tomo refúgio no Dhamma); Sangham Saragnam Gachami (eu tomo refúgio no Sangha), lembram-me, simplesmente, até daquilo que eu possa estar a experimentar, do horrível, maligno ou assustador, louco, demente, ou seja lá a qualidade que possa ser…mas o meu refúgio, é ver isso em termos daquilo que é Samskāra (formação mental), a surgir e a acabar. Ver a cessação disso, não é rejeitar isso, mas permitir que o seja e logo realizar a cessação. Porque nessa “Presença Consciente”, então está-se de facto a observar…já não se é mais a pessoa a possuir a condição, é-se Buddho, o Buddha a observar e a conhecer o Dhamma, tudo o que está sujeito a sugir e tudo o que está sujeito a acabar.

Ora, quando algo acaba, o que realmente acontece é largar algo, não é rejeitar esse algo. Rejeição implica sempre aversão, “eu não quero isto” e aí está aversão… e nunca nos libertamos através da rejeição do que quer que seja, simplesmente suprimirmos e quanto mais suprimimos, mais essas raivas e esses medos nos fulminam por dentro, cortam, corroem-nos completamente… comem-nos o fígado e o baço (ri). Então é como guardar estes demónios dentro de nós e depois perguntar porque sômos miseráveis. O que se tem que fazer é abrir a porta amplamente e… eles também não querem ficar cá dentro, deixem-nos sair, libertem-nos, dê-se amnistia a todos os prisioneiros…um grande gesto, é um gesto de Amor, não é?.. de Amor incondicional… e depois o que sai fora é do género, eu comparo-o com um clister… o que sai é nojento, mas… uma vez terminado, sentimo-nos muito melhor (risos). Mas depois, isto também nos transmite um sentimento da beleza da vida. Apesar de toda a negatividade, maldade e egoísmo, da violência que se ouve interminávelmente nos média, acerca do egoísmo e da corrupção da humanidade… se provarmos isto a nós próprios, realizamos que, o que jaz por debaixo de tudo é Amor… Amor incondicional.

Eu não espero que acreditem em mim, mas isto é só uma sugestão… uma forma de olhar. Não tem nada a ver com gostar. Mas é uma realidade incondicional. É real, não é só um momento inspirado na minha vida, em que de repente amo toda a gente. Não é isso.

Reconheçamos o incondicional, como na “Terceira Nobre Verdade” – a cessação do sofrimento… realizar essa realidade. O que começa acaba. Permitir às coisas que acabem. A morte é o fim de uma condição, cessação… morte. E nós temos medo da morte. Portanto, muitos de vós vêm dizendo que uma grande quantidade de medo aparece na vossa prática à medida que se aproximam do vazio. Experimentar o vazio e o “não eu”, revela-se bastante assustador. Porque não estamos preparados para isso emocionalmente. Nós estamos emocionalmente condicionados para os extremos… e então queremos alegria e tememos o sofrimento… sucesso, euforia e falhanço, “não presto para nada, a vida não vale nada, não tem sentido nenhum”, e por aí fora… portanto, as emoções, estes hábitos emocionalmente extremistas, estão relacionados com este dualismo dos oito Dhammas mundiais. Mas emocionalmente nós não nos sabemos relacionar, nós não estamos aprimorados. As nossas emoções, porque se enquadram no desconhecido e no incerto, fazem-nos perder o sentido. Se nos definirmos como isto ou como aquilo, ficamos com uma certa noção do que se é… mas se de repente alguém nos tira as nossas identidades, não sabemos quem somos e isso é muito assustador. Portanto mesmo que nos assumamos bastante negativamente “Eu sou um falhanço absoluto sem esperança alguma”, ao menos definimo-nos (ri)… ao menos sabemos quem somos (ri)… mas, se nos convencermos “eu sou uma forma vastamente superior de humanidade” neste caso tanto nos podemos engrandecer como menosprezarmos… mas quando não há “eu” as coisas mudam. Lembro-me de há uns anos atrás, em Wat Pah Pong, quando ainda estava com Ajahn Chah, atravessei um período, com uma voz interna, eu senti que estava a morrer ali, senti que estava a morrer naquele mosteiro… e tinha este tipo incrível de grito cá dentro, a agudizar “eu quero viver”… esta voz interna “eu estou a morrer, eu quero viver” e de repente intimidei-me e comecei a olhar à volta “ isto é um sítio de morte, este mosteiro… o budismo fala só de morte e aniquilamento” (sorri), e logo surgiram-me todos os tipos de suspeitas e medos, “talvez seja mesmo uma religião diabólica… ou exterminadora”. E então este “eu quero viver” era como um grito dentro de mim, mas apesar de todo este tremor, eu consegui ter suficiente visão interior para na realidade não acreditar nisso, para não vacilar… mas foi muito intimidante, muito forte. Ou seja, quanto mais desenvolvo esta “consciência presente” (awareness), esta torna-se a força maior… e o sentimento de mim próprio como ego começa a entrar em pânico “quem sou eu então?.. eu vou morrer… eu tenho medo da morte”. E então muitas vezes usamos as palavras “vida” e “morte” como um par dualísta e dizemos “vida” ou “morte”. Mas, na forma de encarar as coisas no sentido Budista, é antes “nascimento” e “morte”… nascimento e morte sim, vão juntos. A palavra “vida” então, quererá significar o quê?.. será vida eterna?.. poderia ser. No entanto, nessa minha experiência, não se trata de condições eternas, condições que duram para sempre, mas subitamente, toda a noção de morrer, de mim a morrer, morreu (ri sózinho)… e a morte estando morta, não existe mais morrer então (ri sózinho outra vez)… portanto isto é o que Ajahn Chah costumava sempre dizer, «morre antes de morrer» que em Tai diz-se “dtai gon dtai” (ri como uma criança)… e Ajahn Chah estava constantemente a tentar dizer isto, “morre antes de morrer”. E então esta morte do ego, este poderoso sentimento da minha distinção de “eu” e “meu”, à medida que confio nesta “Presença Consciente”, este poderoso sentimento de “eu” em me manter o “eu”, a minha distinção, a minha singularidade, de repente morreu. Eu podia então deixar-me morrer se realizasse e visse isso, uma vez que eu estava a morrer e a sofrer a todo o tempo, pois era algo que não podia continuar.

Portanto, simplesmente se assume e se actua como se fossemos este ego o tempo inteiro… este ego sou eu mesmo e está comigo o tempo todo e mesmo quando estou a dormir, ainda sou Ajahn Sumedho. E depois há a forma como as pessoas falam carregadas da mais variada terminologia, em que assumem todas aquelas tendências latentes, raiva reprimida contorcendo-se das profundezas e talvez existam até todo o tipo de energias negras cá dentro à espera de sair com medos e tudo à volta. Como então acabar-se com isto? Na abordagem Budista, o Buddha encarou este problema através do reconhecer que condições dão origem a outras condições – “origem dependente”. Ou seja, maneiras de reconhecer a sua criação, como quando há condições para a raiva e a raiva surge, não é nada senão algo que está latente, algo que subjaz internamente… a não ser que se assuma e identifique na realidade com o que está a acontecer. E então eu acho que compreender a “origem dependente”, é um modo muito mais proveitoso de olhar para a experiência, porque, por exemplo, quando o Sol brilha, quando chove, quando se está a ser elogiado, insultado, quando se está a sentir com saúde ou doente, as emoções estão sempre de acordo com as condições. E a plena consciência da condição, não é a condição. Portanto, não é uma condição a olhar para outra condição. Então esta consciência presente, está também consciente da personalidade ou do momento em que as condições para ser uma pessoa ou uma personalidade surgem e eu sou assim… sou pessoa feliz, pessoa infeliz, pessoa irritada, pessoa enlevada, pessoa deprimida, pessoa ofendida, pessoa aborrecida, pessoa assustada. Mas com a “Presença Consciente”, à medida que se reconhece o que é “Presença Consciente”, chega-se à simplicidade última. Como o espaço, não há nada de complicado a seu respeito. Não é nada que dependa de outras condições para ser plena atenção. Ou seja, até no meio do inferno se tem plena atenção. Então na Escola Mahāyāna, eles têm assim “Um Lótus que floresce por entre o Inferno é indestrutível” e depois vê-se a pintura desta Flôr de Lótus extremamente delicada e tudo em seu redor a arder tremendamente. Esse é o meu Ícone, ser este Lótus é um símbolo de pureza na religião oriental. “Um Lótus que floresce por entre o Inferno é indestrutível”… Lótus indestrutível, “Presença Consciente”. E o inferno continua à volta, mas esta “Presença Consciente” é indestrutível, por isso é que aqui se trata de reconhecê-la, realizá-la, não de tentar possuí-la ou criá-la. É aqui precisamente que as palavras sempre nos podem na realidade desviar ou conduzir no mau sentido, porque concebemos e definimos a “plena atenção” à nossa maneira. Queremos encontrar o que é, definir e falar sobre isso. Mas nada mais é do que isto. Na realidade é nada… com excepção de que é simplesmente atenção ao presente. Não se trata de seleccionar, não é concentrarmo-nos ou ter preferência por uma coisa sobre as outras e tentar controlar o que quer que seja, mas sim de permitirmos reconhecer esta situação pela qual nós estamos condicionados a tornarmo-nos, a nascer, a morrer, a ter medo, a gostar e a não gostar. Isto é o nosso condicionamento cultural e as nossas personalidades que estão construídas sobre estas ilusões… e toda a linguagem que usamos, reforça esta ilusão.

Portanto estas são as três amarras que nos cegam o caminho da “Quarta Nobre Verdade”, que se baseia em Sammā-ditthi (compreensão correcta). Estas três amarras são então o ego (sakkāya-ditthi), o ponto de vista da personalidade que é um ponto de vista criado; o processo cultural condicionador, condicionamento cultural; e a dúvida que é o resultado do pensamento. Se pensamos demasiado, duvidamos demasiado. Se se pensar demasiado, é-se constantemente um monge que não pára de questionar, inquieto. Na universidade encontra-se muita gente a duvidar, porque pensa. Em Berkeley, havia tantas pessoas… cépticas, cínicas, porque… simplesmente reparem, quando se pensa muito, quando se pensa sobre nós próprios, sobre a nossa prática, sobre o Budismo, sobre outra coisa qualquer, começa-se a duvidar sobre isso… e então este pensar cria esta dúvida (vicikichchā). É por isso que este realizar, reconhecer a “Presença Consciente” (Awareness), é o alvo da “Quarta Nobre Verdade”. É um meio inteligente de usar algo tão vulgar como o sofrimento, reconhecer as causas do apego, do desejo, largar (abrir a mão) e então realizar a cessação, que o que surgiu tem um fim. Fica-se então desperto, a “Presença Consciente” liga-nos à ausência, à cessação de algo. E quando há cessação na consciência, não é morte…eu ainda respiro, ainda me sinto vivo, mas o sofrimento acaba…e então quando se diz, toda a fenomenologia condicional é Dukkha (insatisfação-sofrimento), não se trata de desvalorizar a beleza, nem a bondade, nem a graciosidade do mundo condicionado, mas trata-se antes de realçar a sua natureza condicional, para que não haja apego a qualquer condição e manter-se fora da ignorância.

Parte de nós falta, não estamos completos, há uma falha, falta qualquer coisa…e enquanto a nossa identidade estiver nesse nível de fenomenologia condicional, não importa o que se faça vai-se sentir que há algo que falha na nossa vida. E então podemos ir à procura de alguém, ou ir à procura de Poder ou colocação profissional… mas não importa o quanto procuremos lá fora, haverá sempre um sentimento de falta, de imperfeição… de falha. Porque a falha é simplesmente não estarmos a ser totalmente conscientes. Cria-se esta divisão, separação…e a outra pessoa pode até fazer-nos sentir completos, mas quando se vai embora, ficamos incompletos novamente. Portanto é só uma completude ilusória.

O Buddha apontou para a imortalidade ao invés de nos inspirar só a agarrarmo-nos às condições boas, ao que se torna bom ou a viver a vida ignorando a parte má e tentar só tomar atenção à boa. Mas nós aprendemos de ambas… ambas têm valor idêntico, o bom e o mau… o certo e o errado. Porque todas as condições, se nós deixarmos, terão um fim. E então a cessação é paz, liberação. E isso é Amor.

Amor subjaz a tudo neste planeta, neste Universo em que vivemos. Seremos nós só máquinas gulosas?.. não, nós amamos, nós sentimos Amor, nós sentimos algo mais profundo do que somente preferências pessoais. Para lá desse tipo de egoísmo e cegueira do ser humano, existe também um sentir para a imortalidade, pelo espiritual, pela verdade última. E isso é do que a religião trata, todas as religiões em todo o lado, com diferentes tipos de reconhecimento e formas de o proclamarem, em que até o símbolo que usam pode variar, mas é para onde todas as religiões apontam, porque isto é algo que se encontra na condição humana. Então em termos de prática de “Metta” apercebemo-nos que, quanto mais entramos em contacto ou repousamos, ou confiamos neste Amor incondicional, é esta uma das verdadeiras formas com que podemos ajudar todos os seres sencientes neste preciso momento. A um nível pessoal podem pensar, «como é que eu vou ajudar?..toda aquela gente a morrer no Iraque e todo o tipo de violência que vai por aí fora?»… mas quanto mais os seres humanos reconhecerem, acordarem para a verdade última, então isto será para o benefício de todos, porque está tudo interligado…isto não sou só eu a sentir-me liberto do sofrimento e “para o inferno o resto de vocês” (ri)… porque já não sou eu. Já não sou eu como uma entidade isolada, com esta forma humana. Então compaixão, Karunā-Muditā-Upekkhā, os Brahma-vihāras, vêm daí. Estas são as respostas ao sofrimento e à beleza que nós experimentamos através da consciência como entidades independentes do condicionamento pessoal que nos cega para a verdade última.

… ora então ofereço isto como reflexão…

Ajahn Sumedho

Tradução de Dhammiko Bhikkhu

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