Upasampada – Primeira ordenação completa de um monge Budista português em Portugal

 

Primeira ordenação completa de um monge Budista português, na Tradição Theravada da Floresta da Tailândia, em Portugal

 

‘Eu ensino o Dhamma para o abandono de aquisições egotistas, a fim de que em vós, que colocastes o ensinamento em prática, sejam abandonadas ideias corruptas e aumentem ideias purificadoras; e que por realização aqui e agora, através de conhecimento directo, possais entrar e permanecer na plenitude da perfeição do entendimento …. Se se pensar que assim proceder traduz uma vivência desagradável, isso não é verdade: antes pelo contrário, ao fazê-lo, há alegria, felicidade, tranquilidade, consciência, atenção plena e uma vivência agradável.’

Digha Nikaya IX

 

“EHI BHlKKHU!” ‘Venha, bhikkhu!’ são as palavras no Cânone Pali que o Buda usou quando primeiro ordenou os interessados em devotar suas vidas como monge budista (ou bhikkhu). Essas palavras foram utilizadas há mais de dois milénios atrás, depois do Abençoado ter ‘girado a Roda do Dhamma da Verdade’  e de ter começado seu ministério para ajudar os seres perdidos neste mundo de impermanência. Esta Ordenação vem na sequência de um processo que tem evoluído desde o primeiro convite a Ajahn Sumedho para ordenar monges no Ocidente.

No início de 1981, o Venerável Ajahn Sumedho, patriarca da Tradição no Ocidente, e primeiro abade mestre dos Mosteiros da Floresta de Chithurst e Amaravati no Reino Unido, foi convidado a ir à Tailândia pelo seu mestre de meditação, o Venerável Ajahn Chah. Aí foi-lhe conferida permissão para executar as funções de Upajjhaya (Preceptor) na Grã-Bretanha pelo Bhikkhu ancião mais sénior do Sangha Tailandês. Sentindo que seria útil, ele aceitou essa responsabilidade.

Há registros de que no Século III antes de Cristo, o grande Rei budista Asoka enviou seu filho, Arahant Mahinda, ao rei Tissa do Ceilão, para semear as sementes do Buddha Sasana (Ensinamento) naquele país. Era assim que se considerava que o Sangha ganhava raizes no solo de uma Nação. Por volta de 1360 DC, o então rei da Tailândia solicitou do Ceilão que bhikkhus fossem enviados para presidir e validar ordenações na Tailândia. Em 1908, o primeiro bhikkhu Inglês – Anandamaitreya – regressou a Inglaterra, vindo da Birmânia com aspirações para que no seu país pudesse estabelecer a ordem de monges budistas. Em 1956, a Instituição de Caridade ‘English Sangha Trust’ foi criada como passo concreto para esse mesmo nobre objectivo, e em 1981, com três dos directores presentes – Sr. Maurice Walshe, o Sr. Geoffrey Beardsley e o Sr. George Sharp – este objectivo foi realizado.

Hoje, em Portugal, temos já fundada a Pessoa Colectiva Religiosa ‘Budismo Theravada da Floresta – Comunidade Religiosa’, com os mesmos objectivos de proporcionar todo o apoio necessário à prosperidade da Comunidade Monástica e disseminação do Dhamma em Portugal. Os três primeiros Bhikkhus (monges com ordenação completa) portugueses nesta tradição, ordenaram-se fora de Portugal – um na Tailândia e dois em Inglaterra no mosteiro de Amaravati. O quarto Bhikkhu, o Venerável Mandali, vai ser a primeira semente do Sangha português a germinar em Terras de Luso. Um marco histórico.

Ao longo dos últimos anos, depois de Ajahn Sumedho, foi conferida a permissão para executar funções de Upajjhaya (Preceptor) a outros monges Séniores do Sangha Internacional no Ocidente. Nesta Ordenação a 18 de Setembro, teremos vindo do Mosteiro Santacittarama em Itália, o Venerável Ajahn Chandapalo para liderar esta nossa auspiciosa Ordenação.

Alguns procedimentos importantes têm primeiro de ser preparados. Um dos mais significativos é o estabelecimento de um limite ou Sima: uma área especialmente definida e delimitada em que as cerimónias do Bhikkhu-Sangha podem ter lugar.

 

SIMA

Uma das condições prévias para a existência e continuidade da comunidade budista é haver um limite (Sima), que define o espaço designado para actos eclesiásticos (sangha-kamma) dentro do qual todos os membros da mesma linhagem monástica presentes no local devem se reunir como sangha completo (samagga Sangha). Esta integralidade do Sangha é um pré-requisito para o desempenho válido de cada acto eclesiástico da Comunidade Budista.

Sima, ou marcos de limites budistas como muitas vezes referidos, são essencialmente objetos colocados num determinado padrão ou formação como para demarcar certos tipos de espaço sagrado budista. Estas áreas de espaço sagrado podem ser um mosteiro inteiro, um determinado edifício dentro do mosteiro ou outras áreas religiosas, como uma floresta ou habitação. Hoje em dia são comuns em toda a maioria dos países budistas Theravada do Sudeste Asiático, incluindo Tailândia, Laos, Birmânia e Camboja, com o Sima geralmente erguido em conjuntos de oito ou dezasseis pedras.

A lógica canónica para a criação de uma sima encontra-se no Mahavagga do Vinaya Pitika (Mahavagga II 5. 4-15. 2). Neste texto afirma-se que um sima (limite) deve ser criado para que determinados rituais, como o Patimokkha (recitação das regras) e Upasampada (ordenação) tomem lugar. Este limite deve ser criado por Nimitta (marcos de fronteira). Esta é uma área pequena (khanda-sima) rodeada por uma zona circundante (simantarika) estabelecida para reuniões da comunidade. Isso permite que o Sangha realize ordenações dentro dessa área delimitada.